A crise e o valor da vida humana | Adelino Fortunato

01-05-2020

Se há sentimento dominante nos dias que correm é o da incerteza radical. O economista Nouriel Roubini escreveu que a crise atual irá gerar uma recessão maior que as anteriores desenvolvendo-se de forma inédita. Reuniu-se um conjunto de condições de natureza sanitária, ambiental, humanitária, económica e política que faz dela um verdadeiro enigma.

A crise sanitária é o resultado de uma longa evolução predadora que provocou efeito de estufa e manifestações climáticas extremas, erosão rápida dos solos, perda de biodiversidade e destruição de recursos não renováveis. Esta evolução está na génese de epidemias estimuladas pela perda de capacidade de autorregeneração e autodefesa dos ecossistemas. Não é por acaso que outros vírus antes do Covid-19, nas últimas décadas, como o Ébola, a Sida, o zika, a gripe das aves, a peste porcina e outros Covids, foram dizimando milhares de pessoas.

Três semanas bastaram para cavar uma contração que demorou anos a ser atingida em crises anteriores. Porém, a esta rapidez na fase depressiva do ciclo poderá não suceder uma igualmente rápida recuperação. A resposta à gravidade da situação exige uma intervenção orçamental massiva que fará disparar os défices públicos e as dívidas externas. Os países da periferia europeia sentem esta pressão que os dirigentes do FMI resumem de forma cínica: "gastem tanto quanto for necessário, mas guardem os recibos!".

Economistas de todo o mundo propuseram a recuperação económica e social sustentada por criação monetária direta dos bancos centrais, articulando política monetária com política orçamental, sem recurso a dívida no mercado obrigacionista. Na União Europeia isto colide com os tratados em vigor, os países credores perderiam uma boa oportunidade de negócio. Por esta razão recusaram os Eurobonds. Neste caso a Alemanha e seus aliados ajudariam os países mais endividados a partilhar algum risco diminuindo os custos do financiamento da dívida.

Por estas razões o Bloco propôs às autoridades europeias a constituição de um Fundo de Recuperação Económica baseado num misto de dívida não contabilizável para efeitos de défice e financiamento monetário na ordem de 1,5 biliões de euros, com uma taxa de juro próxima de zero e um prazo de amortização de 80 anos. Isto permitiria desvalorizar a dívida na ordem dos 70% tendo em conta a inflação esperada. A proposta do governo espanhol aproximou-se desta perspetiva, mas os sinais vindos do último Conselho Europeu não apontam neste sentido.

Outro grande problema que dificulta a inversão desta crise é o dilema entre o valor das vidas humanas em confronto com as escolhas movidas pelo lucro privado que dominam as nossas sociedades. Trump e Bolsonaro exprimem-no de forma cruel quando expõem as populações dos seus países à morte massificada. Mas não só eles. As autoridades chinesas começaram por resistir ao encerramento de atividades, tal como em Itália, para manter em funcionamento fábricas e outros locais de trabalho não essenciais, criaram-se condições de propagação do vírus junto da população.

Sem uma vacina este dilema continuará a atormentar o cálculo de riscos para a saúde pública da retoma da atividade económica. Algumas formas de teletrabalho podem manter-se, sobretudo nos serviços, muitas outras atividades exigem trabalho presencial e só poderão ser retomadas com grandes constrangimentos. Isto criará um dualismo no mercado de trabalho acompanhado de forte desemprego, que retardará a capacidade de retoma das economias desenvolvidas. Não descurando novos surtos da pandemia alimentados pelo abrandamento das medidas de contenção, compreende-se por que razão Roubini declarou que esta crise pode ser mais prolongada que as anteriores. Às insuficiências da política económica adiciona-se o cálculo do valor da vida humana, algo que não aconteceu em crises anteriores.

É verdade que esta dicotomia sempre existiu na história do capitalismo, os acidentes de trabalho e a exposição à doença e à morte de muitos trabalhadores são prova disso. Mas neste momento esta opção é ainda mais dolorosa e determinante.


Adelino Fortunato
Professor de Economia e dirigente do Bloco de Esquerda

Share
R.A.D.A.R.  - Rede de ativistas para Debate, Ação e Reflexão no combate pelo Socialismo
Desenvolvido por Webnode
Crie o seu site grátis! Este site foi criado com a Webnode. Crie o seu gratuitamente agora! Comece agora