A solidão no capitalismo | Adelino Fortunato

15-09-2021

Os sinais são cada vez mais alarmantes. A solidão tornou-se um problema global, não apenas desta ou daquela parcela da população, deste ou daquele país ou região. Em Inglaterra, a Campanha para o Fim da Solidão concluiu que 45% dos adultos sofrem de problemas graves decorrentes de situações de solidão. O general americano Vivek Murthy chamou-lhe, em 2017 e muito antes da pandemia do Covid-19, uma epidemia. Já em 2019, inquéritos realizados por todo o mundo deram conta que 22% dos indivíduos das gerações mais recentes declararam não ter amigos. E a Organização Mundial de Saúde, no estudo desenvolvido em vários continentes, concluiu que 20 a 34% dos idosos experimentam situações de solidão absoluta. Psicólogos e outros profissionais trabalhando com estas matérias declararam que a solidão é
um fator de risco podendo provocar hipertensão, doenças coronárias, enfartes ou depressões. De acordo com declarações da psicóloga Julianne Holt-Lunstad em 2015, a solidão pode ter um efeito negativo sobre o estado geral físico de qualquer pessoa idêntico ao que resulta de fumar 50 cigarros por dia.
Alguns observadores culpam as redes sociais, nomeadamente o Facebook ou o Instagram e o Twitter, pelo surgimento deste fenómeno à escala global. As pessoas dispensariam o contacto pessoal em troca de amizades ou comunicações virtuais que produziriam o isolamento social. Se isto pode ser verdade até certo ponto, quando aqueles veículos de comunicação são usados em excesso, não é menos verdade que as redes sociais frequentadas de forma moderada podem ser úteis para a troca de informação e para agilizar iniciativas. Isto foi particularmente verdade no decorrer dos períodos mais críticos e de maior confinamento no decorrer da recente pandemia do Covid-19.

A verdade é que o atual modelo de capitalismo impede muitos cidadãos e cidadãs de manterem relações familiares estáveis, ou de cultivar as suas amizades ou fazerem novas amizades. É difícil fazer amizades ou vida familiar quando se reparte o tempo de vida por vários empregos (mal pagos), se cuida dos filhos ou outros familiares dependentes e ainda se suportam as tarefas básicas relacionadas com alimentação e higiene do lar. Os espaços públicos destinados ao contacto social sem custos tendem a escassear, como consequência da privatização de serviços suportados pelo Estado ou pelas autarquias e o dinheiro tem de ser reservado para despesas inadiáveis.

Outro tipo de problemas resulta das zonas em declínio económico e demográfico. Nas regiões rurais ou nas cidades industriais abandonadas pelas empresas os jovens são forçados a procurar emprego nas grandes cidades e os que ficam são remetidos para o abandono, para a perda de infraestruturas básicas, como centros de saúde, escolas, estações de correios, estações de comboios, dependências bancárias e outras. Nas grandes cidades, os migrantes são empurrados para os subúrbios e para a desintegração e desenraizamento social, perdendo horas a fio nos transportes em movimentos pendulares entre as zonas de habitação e os locais de trabalho, com tudo que isso significa em termos de desestruturação familiar e abandono dos filhos.

Finalmente, as profundas desigualdades sociais que as sociedades contemporâneas exibem tornam difíceis, senão mesmo impossíveis, relações sociais equilibradas. Em qualquer sociedade os seus membros reagem à avaliação social feita por aquelas ou aquelas com quem lidam ou interagem. As desigualdades profundas criam não só a pobreza e a pobreza extrema, como ainda a desconfiança, o sentimento de injustiça e muitas vezes a estigmatização de grupos específicos da população. Este é o caldo de cultura onde medram a marginalização ou sentimento de não pertença, o racismo ou a discriminação. E a solidão é justamente um mecanismo de aprofundamento do isolamento.

Se quisermos combater este sentimento de solidão que cresce em todo o mundo precisamos de construir um outro tipo de sociedade, uma sociedade que coloque as necessidades humanas e a compatibilização com a natureza no centro das preocupações. Uma sociedade assente exclusivamente no estímulo do lucro e na falta de regras é conduzida à desumanização e à degradação do meio ambiente, com as consequências catastróficas que por todo o lado se hoje se reconhecem. As alterações climáticas e a degradação das condições de vida por elas arrastadas afetam toda a humanidade, mas não há dúvida também que elas atingem de forma desproporcionada e mais profunda as populações e os grupos mais vulneráveis e mais isolados. A solidão global é uma epidemia que deve ser erradicada com urgência.


Adelino Fortunato
Professor de Economia e dirigente do Bloco de Esquerda



Imagem: Alexis Fauvet on Unsplash

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