Cimeira Social: a pobreza como fator de doença ou a doença como fator de pobreza? O círculo vicioso dos determinantes sociais | José Manuel Boavida
Ao saber da realização da Cimeira Social pela Presidência Portuguesa da União Europeia, a Federação Internacional da Diabetes - Região Europa (IDF Europa) e a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) procuraram , sem sucesso, introduzir o tema da saúde e a sua relação com a pobreza. A UE, já em 2017, aprovou os "Pilares Europeus dos Direitos Sociais" e colocou na agenda 3 temas relacionados com a saúde: cuidados continuados, cuidados de saúde e apoio e cuidados às crianças: ou seja, cuidados universais de saúde. Haveria que lhes dar sequência...
É essa a minha intenção, voltar a colocar os cuidados universais de saúde na agenda social. Esta cimeira ocorre uma semana antes de a APDP comemorar o seu 95.º aniversário. Ao saber que a pobreza vai ser um tema do programa da Cimeira, enquanto instituição nascida para "proteger os pobres" (o nome inicial da APDP era o de Associação Protectora dos Diabéticos Pobres), nunca deixamos de olhar para os mais vulneráveis como o público alvo da nossa ação. As pessoas, por mais pobres que sejam, são sempre as principais interessadas nos seus próprios cuidados. A APDP começou por dar a insulina gratuitamente, mas cedo percebeu que o seu uso necessitava de educação. Daqui nasceu uma estrutura de apoio educativa com uma máxima: "fazer com que todas as pessoas com diabetes vivessem e trabalhassem como se não fossem doentes". Criada em 1926, a APDP combateu sempre uma visão assistencialista, sabendo que a sua missão era menos tratar as pessoas e mais ensiná-las a cuidar de si próprias, como dizia o Prof. Pulido Valente, já em 1925.
Em 2019 viviam na Europa 59 milhões de pessoas com diabetes, das quais 32 milhões na UE (cerca de 8%). Em média, a diabetes reduz a esperança de vida nas pessoas entre os 40 e 60 anos em 4 a 10 anos, aumentando o risco de morte por doença cardíaca, renal ou por cancro. Um terço das mortes por diabetes foi em idades inferiores aos 60 anos e a diabetes estava no 3.º lugar das causas mais frequentes de dias evitáveis de internamento hospitalar. Ainda em 2019, os custos com a diabetes atingiram uma estimativa de 9% dos custos totais da saúde, essencialmente devido às complicações evitáveis da doença[2].
Algo muito relevante neste quadro aparece quando olhamos para ele em pormenor: a diabetes quase que duplica a sua prevalência se se considerarem os sectores mais frágeis, principalmente nos homens. Se olharmos para a educação, a prevalência aumenta 30% nas pessoas com o ensino básico em comparação com as que frequentaram o ensino secundário ou mais.
Foi a partir desta evidência que alguns autores criaram o modelo do ciclo sociobiológico da diabetes: os determinantes sociais como o salário, a educação, a habitação, ou o acesso à alimentação, causam pobreza, que, por sua vez, provoca uma privação material e stress crónico, e que, consequentemente, provocam respostas biológicas e psicológicas que dão origem à diabetes. Esta, por sua vez, tem implicações sociais, como os custos com os cuidados, complicações no emprego, eventual aumento do absentismo ou do potencial educativo.
É aqui que a Cimeira Social podia e devia intervir: o impacto da pobreza na saúde deve ser reconhecido como um factor maior de risco para a saúde e incluir estas populações nas políticas prioritárias de saúde.
Reduzir a pobreza, melhorar a educação, a habitação e garantir emprego, são factores determinantes no combate à diabetes e à grande maioria das doenças crónicas, promovendo uma melhor saúde e bem estar para milhões de cidadãos e consequentemente menos pobreza.
A APDP nasceu para os pobres e apesar de hoje em dia ser a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal continua a ter esse papel, continua a atuar junto dos mais desfavorecidos porque é junto desta população que a diabetes mais cresce. No atual contexto de crise sanitária, social e económica em que vivemos, esta é uma realidade que deveria obrigar-nos a refletir e a desenvolver programas efetivos de combate à diabetes, fazendo a diferença na vida das pessoas. Mas esta é uma luta que a APDP não pode travar sozinha, precisa da ajuda de toda a sociedade. E a Cimeira Social poderia ser uma boa oportunidade. Esperemos que não a falhe! É o desafio que lhe lançamos!
Artigo publicado originalmente no6 jornal Expresso 06/05/2021
José Manuel Boavida
Presidente da Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal. Dirigente do Bloco de Esquerda
Imagem | Alexander Schimmeck on Unsplash

