Melhorar a intervenção, fortalecer o Bloco
NOVOS DESAFIOS
1.O Bloco de Esquerda é hoje um partido insubstituível na esquerda portuguesa. Depois de quatro anos de acordos com o governo PS baseados na defesa do Estado Social e nainterrupção das privatizações e da liberalização dos despedimentos, o Bloco alargou a sua influência de massas e passou a condicionar algumas políticas (salário mínimo, integração dos precários, Lei da Bases da Saúde, etc). No essencial isso deveu-se à independência que soube manter face aos fundamentos neoliberais que sempre estiveram no horizonte político de António Costa e dos seus parceiros da União Europeia, apesar da votação favorável de quatro orçamentos e de outros compromissos.
A articulação entre aquelas diferentes vertentes fez do Bloco um sujeito político capaz de disputar não só o terreno da oposição, mas também de sugerir capacidade para se envolver de na área da governação. Os efeitos desta orientação estão a ser significativos dentro e fora do Bloco. No plano da política nacional ela produziu um isolamento da direita que nem os acordos pontuais do governo com o patronato, com o PSD ou com Marcelo foram capazes de disfarçar: a direita não se entendeu acerca da forma de lidar com esta nova realidade e afundou-se de forma dramática. No plano interno ao Bloco, esta orientação e os seus bons resultados geraram unanimidades na Mesa Nacional e a dissolução das oposições e agrupamentos tradicionais.
O Bloco tornou-se uma nova realidade política e evolui para outros desafios. Novos aderentes e novas sensibilidades se irão aproximar e novas solicitações irão surgir, com tudo o que de positivo e negativo isso possa envolver. Hoje, a intervenção no seio do partido só pode resultar da participação leal e aberta nestas novas tarefas, seja nos órgãos, seja na intervenção nas diferentes interfaces com a sociedade ou nos movimentos sociais. As tentativas de construção de contrapoderes com o objetivo de vir a ganhar representação, mobilizando bolsas dedescontentamento sem objetivos políticos claros serão, neste contexto, incapazes de lidar com o nível de exigência do próximo período. Só não será assim se o Bloco falhar na construção da resposta acertada às enormes responsabilidades que o novo ciclo político lhe reserva.
2.O que está na ordem do dia já não é imprimir um curso novo ao Bloco de Esquerda, uma vez que ele já existe na tática inclusiva dirigida às massas trabalhadoras e às direções dos grandes partidos de esquerda para uma política de defesa das reivindicações de todos os oprimidos e explorados pelo capitalismo, pela sociedade patriarcal e pelo racismo. Esta abordagem desafiadora conduziu o Bloco à influência e às perspetivas de crescimento que hoje dispõe. O que se impõe, agora, é ajudar o Bloco a fazer uma boa aplicação dessa mesma tática, retirando dela todas as potencialidades, contribuindo para o enraizamento social do partido, evitando pressões de integração institucional ou reformistas e assegurando uma boa articulação com as lutas dos trabalhadores, como ficou patente no debate acerca do recente surto grevista.
O que é específico e define o contributo de qualquer linha política ou de qualquer plataforma de intervenção é a forma como os objetivos estratégicos se desdobram a cada momento em ações e propostas concretas adaptadas à mobilização anticapitalista. Não compreender isto e afunilar a ação política em torno da luta pela salvaguarda de regras formais de funcionamento do partido só serve para esconder o vazio de ideias e, muitas vezes, para gerar frustração, abandono e desmobilização. As circunstâncias atuais exigem a criação no Bloco de um novo espaço para a intervenção anticapitalista que contribua pela positiva para o acerto tático da linha política e para a correta intervenção, seja nas instituições seja no movimento social.
NOVO CICLO POLÍTICO
Por outro lado, a entrada do Bloco nesse governo só seria aceitável após uma subida eleitoral significativa e se esse governo tivesse no seu programa aquelas medidas de rutura, com impacto estrutural e com potencial anticapitalista. Se esta proposta não for acolhida, a responsabilidade do fracasso deverá ficar do lado dos outros partidos. Neste último caso, tendo em conta a natureza defensiva e de refluxo do período, outras modalidades de entendimento à esquerda podem ser exploradas, condicionando o grau de comprometimento do Bloco à obtenção de resultados concretos, mesmo que limitados. Em qualquer dos casos, o Bloco de Esquerda deve manter sempre a sua autonomia política e a capacidade crítica para ser oposição a todas as medidas inaceitáveis e antipopulares.
LIDAR COM A INCERTEZA E A INSTABILIDADE
É esta mesma lógica que ajudou a gerar um breve relançamento do crescimento económico, conseguido à custa do congelamento dos salários reais dos trabalhadores e da proletarização (ou da ameaça de lumpenização) de camadas das classes médias, estas fortemente atingidas pelos efeitos da crise de 2007/2009 e pela desvalorização das suas expetativas de progressão social face à subida vertiginosa dos preços da habitação nos principais centros urbanos e à subida dos custos da educação mercantilizada ou mesmo privatizada um pouco por todo o mundo. As oscilações destas camadas sociais são muito importantes para compreender o grau de decomposição das sociedades contemporâneas e para antecipar as possibilidades de crescimento da extrema-direita. Se somarmos a tudo isto a agudização das rivalidades inter-imperialistas, com o surgimento de potências emergentes e de políticas protecionistas (por exemplo guerra comercial entre os Estados Unidos da América e a China), temos a noção mais exata dos riscos de instabilidade e de viragens bruscas que a atual situação comporta. O recurso massivo a instrumentos não- convencionais (taxas de juro negativas, compras líquidas de ativos pelos bancos centrais) para contrariar as tendências depressivas da situação económica mundial cria uma enorme incerteza acerca do que poderá acontecer se surgir uma nova crise financeira global. Mantendo os fundamentos das políticas neoliberais baseados na austeridade, escasseiam os
instrumentos que possam ajudar a relançar a economia.
5. Existem grandes diferenças em relação ao que se passou entre as duas guerras mundiais do século passado. A primeira das quais tem a ver com a natureza do período no que diz respeito à luta de classes. Hoje não há crises revolucionárias ou pré revolucionárias no horizonte, pois a queda do Muro de Berlim e o desmoronamento da União Soviética consumaram uma retração da esquerda e um refluxo prolongado do movimento dos trabalhadores e das suas organizações. Hoje não há equivalente das vagas revolucionárias da Rússia de 1917, da Alemanha de 1918 ou 1930, da Hungria de 1919, da Itália de 1920, da França ou da Espanha de 1936.
Esta é a grande incógnita do próximo período. A emergência na Europa de movimentos fortes de extrema-direita em países como França, Alemanha ou Itália, para além dos governos da Áustria, Hungria ou da Polónia, mostram como a crise institucional dos nossos dias pode (está a) dar lugar a regimes bonapartistas que, no passado, foram a antecâmara da tomada do poder pelos fascistas. Esperemos que as diferenças entre estes dois períodos sejam suficientemente fortes para se sobreporem às semelhanças e que o exemplo de Portugal constitua uma referência para o que se pode fazer e evitar o pior.
UM RADAR PARA OS NOVOS DESAFIOS
Esta rede, informal, dotar-se-á de instrumentos de expressão pública, um blogue e uma página no facebook com a designação Radar, para facilitar a interação com quem o desejar. Será feito também um acontecimento público de divulgação, provavelmente em Outubro, logo após as eleições regionais da Madeira e dos Açores e das eleições legislativas nacionais.
ANA MARGARIDA ESTEVES
ANA VIEIRA DE CASTRO
DANIEL BAPTISTA
HELENA FIGUEIREDO
JOÃO NÓBREGA
JORGE PEREIRA
JOSÉ MANUEL BOAVIDA
LUÍS NASCIMENTO
MARIA JOSÉ VITORINO
NUNO CALHEIROS
PATRÍCIA BARREIRA
PAULINO ASCENSÃO
RICARDO GONÇALVES
RUI CURADO SILVA
SARA GOULART DE MEDEIROS
VANESSA PEREIRA
SUBSCREVE A DECLARAÇÃO POLÍTICA:

