O novo ciclo político, as europeias e o Bloco de Esquerda
1. As eleições europeias confirmaram as caraterísticas do atual ciclo
político marcado pela ascensão de uma extrema-direita diversificada e
pela diminuição da representatividade do centro político composto pelos
partidos social-democratas e pela democracia cristã. A eleição de Trump e
de Bolsonaro já tinha mostrado, no plano internacional, a relevância
dessa extrema-direita e do novo contexto político. No quadro europeu,
para além das experiências da Hungria, Polónia e Itália, a
extrema-direita apareceu também em coligações de governo e, em França,
ameaça chegar ao poder.
Sendo uma realidade diferente do fascismo clássico, a extrema-direita
irá criar uma pressão iliberal pela concentração de poderes,
nacionalista, racista, xenófoba e homofóbica. Ela poderá fortalecer-se
com a desestruturação social e as desigualdades trazidas pela
globalização, com a imigração e com o descontentamento criado pela
degradação dos serviços públicos, que tem acompanhado as políticas de
austeridade e as políticas neoliberais em geral.
Estes ingredientes combinam-se com rivalidades criadas pela globalização e pelo fim da
hegemonia política absoluta dos Estados Unidos da América, fatores que
estão a promover guerras comerciais e políticas protecionistas contra
potências emergentes. Estas tensões potenciam instabilidade e conflitos
inter imperialistas pela partilha de recursos estratégicos mundiais e
zonas de influência, sendo o exemplo da Venezuela o mais recente.
2. Outro aspeto deste novo ciclo, habitualmente pouco destacado, é o da estagnação ou da
regressão da Esquerda Radical. Se é verdade que o Bloco de Esquerda vem
resistindo bem à erosão geral que a esquerda tem sofrido por todo o lado
(o mesmo parece acontecer na Dinamarca com a Aliança Verde Vermelha), a
verdade é que esta corrente sofreu perdas importantes nestas eleições
europeias.
Em particular o Grupo Parlamentar da Esquerda Europeia (GUE/NGL) passou
de 52 para 38 elementos num total de 751 deputados. Para isto
concorreram perdas do Podemos, da França Insubmissa e do Die Linke e de
outros. Se tivermos em conta a já referida contração dos tradicionais
partidos do centro político (social-democracia e democracia cristã)
percebemos como a extrema-direita vem ganhando um espaço só atenuado
pelo avanço dos Verdes. Estas tendências alicerçam-se em transformações
profundas da consciência de largas camadas da população provocadas pelos
efeitos das políticas neoliberais, e isso é um sinal da conjuntura
atual com capacidade para se propagar mesmo a países como Portugal. Isto
quer dizer que, apesar das especificidades da situação política - a
designada exceção portuguesa - e do bom momento do Bloco, os tempos não
são de euforia, sobretudo se o PAN crescer.
3. Apesar de algumas destas tendências não serem esmagadoras (em Portugal a extrema-
direita ainda é irrelevante e o PS está em crescimento), elas foram
suficientemente fortes para obrigar António Costa a participar numa
tentativa de sobrevivência, no plano das instituições da União Europeia,
aliando-se a Macron e a outros representantes da direita, todos ligados
às políticas de austeridade e a políticas neoliberais responsáveis pela
atual situação. Esta operação terá consequências em termos de
compromissos e alinhamento do PS com os projetos de liberalização, de
contenção do investimento público e de cumprimento das metas e
orientações europeias. E que serão incompatíveis com a resposta
necessária para o combate aos elevados níveis de desigualdade e pobreza,
à rutura diária na oferta de serviços públicos e
às alterações climáticas em Portugal.
Por outro lado, este tipo de aliança, ao impedir a resolução dos
verdadeiros problemas que alimentam o descontentamento social e a
ascensão da extrema-direita, mostra bem como a luta contra esta última
ameaça só pode fazer-se por políticas, pela mobilização e por
entendimentos entre toda a esquerda. A procura de compromissos com uma
suposta "direita democrática" para defender a democracia é um erro que
teve consequências trágicas no passado.
4. Este ciclo político em Portugal está a ser marcado pelo fim da
Geringonça e pelo recuo da direita, o que pode aproximar o PS da maioria
absoluta na transição para um governo
minoritário com apoios alternados e entendimentos com Marcelo. É uma
solução instável, mas poderá ser a única possível tendo em conta as
diferenciações existentes no PS, em particular a audiência que o Bloco
ganhou junto de setores do partido opositores de alianças com a direita.
O Bloco deve manter a restante esquerda sob pressão com uma proposta de
entendimento que inclua temas como alterações profundas na legislação
laboral, o controlo público do setor financeiro e da energia, a
transição energética e ambiental para combater as alterações climáticas e
a imposição da reestruturação da dívida pública. E defender taticamente
que esse entendimento até poderia conduzir à participação no governo
que aplicasse tais medidas.
Porém, a experiência dos últimos quatro anos, o crescimento eleitoral do PS e o potencial
agravamento dos constrangimentos vindos da União Europeia mostram que a
possibilidade de réplicas da Geringonça é remota (salvo se o Bloco tiver
um grande crescimento eleitoral), que o Bloco deverá ser oposição e
aproveitar as fraturas geradas por medidas impopulares. Isso terá de ser
feito de forma inteligente, evitando legitimar a colaboração do PS com a
direita, por falta de alternativa ou disponibilidade da esquerda para
negociar.
5. Outra caraterística importante do novo ciclo político que as eleições
europeias parecem confirmar é alguma erosão do PCP acelerada pela
participação na Geringonça. Durante décadas o PCP segurou a sua
influência eleitoral com uma política sectária que imputava ao PS o ónus
das perdas que os trabalhadores foram suportando. É verdade que o PS
contribuiu, no governo ou fora dele, para que isso fosse uma realidade.
Mas tratar o PS como um partido de direita não ajudou o PCP a crescer
nem a enfraquecer o PS. A colaboração na atual solução governativa,
inevitável para evitar perdas ainda maiores, desmontou as barreiras de
proteção e facilitou a passagem de franjas do eleitorado do PCP para o
próprio PS, mas também para o Bloco de Esquerda. O Bloco tem-se revelado
mais capaz de lidar com novas causas dominantes nas sociedades
contemporâneas e com as lutas desprezadas pela burocracia sindical da
CGTP.
Esta tendência mostra a natureza estrutural da crise do partido: por um
lado, para assegurar a sobrevivência, o PCP tem um discurso conservador
virado para o núcleo duro histórico de trabalhadores mais envelhecidos;
por outro lado, ao agir assim, afasta-se das camadas mais dinâmicas e
mais jovens da sociedade; finalmente, o seu poderio sindical abre
brechas e surgem novos sindicatos não-alinhados e lutas que não
controla.
6. Vinte anos depois da fundação, o Bloco de Esquerda é um sujeito político incontornável que se apresenta como terceiro partido português, influenciando a governação e alguns movimentos sociais, subtraindo apoio ao PS e atraindo setores do PCP, que precisa de se consolidar, superando a condição de partido de eleitores para se converter num partido de massas com maior implantação social. A considerável visibilidade mediática aliada à fraqueza da implantação social fazem com que o Bloco esteja hoje muito dependente dos bons resultados eleitorais para consolidar a imagem pública. Para esta boa imagem concorre o grau de acerto da linha política, mas também concorre o eco que os procedimentos internos com impacto no relacionamento com a sociedade acabam por conquistar. Isto quer dizer que o partido não deve cultivar internamente práticas que contrariam as conceções de sociedade socialista, democrática e inclusiva que se propõe ajudar a construir uma vez no poder. Este aspeto é especialmente importante no que respeita à forma como as diferentes sensibilidades internas e as minorias são consideradas nas tomadas de decisão e na construção do relacionamento com o exterior.
7. O Bloco tem perdido diversidade e quadros, não compensados pelos
recrutamentos mais recentes. Como resultado disso o debate político
interno é pobre, está concentrado na maioria, as oportunidades para o
fazer são escassas e corre-se o risco de ele ser substituído pelo
descontentamento e pela polémica em torno das questões relacionadas com o
acesso a funções no aparelho e aos órgãos relevantes.
Isto é tanto mais importante quanto acontece no momento em que o Bloco
vem atraindo a atenção e mesmo a colaboração de novos ativistas, fruto
da capacidade de disputa política nos mais variados terrenos. O que
sugere que o partido precisa de dar sinais de abertura para enquadrar
novos setores e novas camadas que se diferenciam quer no campo da luta
social quer no confronto político com outros partidos.
Precisamos de propostas inclusivas, que salvaguardem o envolvimento nas
diferentes esferas da vida do partido. O modelo existente facilita a
apatia, o abandono da militância, concentra a capacidade de intervenção
na direção e no grupo parlamentar e não aproveita sequer as competências
e a disponibilidade de quem quer participar. O partido não está
preparado para crescer e não crescer ajuda a perpetuar os equilíbrios
existentes. A capacidade de abertura e renovação serão determinantes
para fazer face aos desafios que temos pela frente.
JUNHO DE 2019
ADELINO FORTUNATO
ANA MARGARIDA ESTEVES
HELENA FIGUEIREDO
JOÃO NÓBREGA
JORGE PEREIRA
JOSÉ MANUEL BOAVIDA
MARIA JOSÉ VITORINO
NELSON CALHEIROS
PATRÍCIA BARREIRA
PAULINO ASCENSÃO
RUI CURADO SILVA

