Formar professores Preparação, dedicação, paixão | Maria José Magalhães, Maria José Vitorino
Ser
professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria, mas tem
de ser uma paixão.
Uma dedicação.
António Gedeão /
Rómulo de Carvalho
A formação inicial
de professores não é a última etapa de um percurso académico, mas
o primeiro passo de um caminho profissional. Esta consideração é
importante, e entendê-la, e aceitá-la como ponto de partida
distingue, ou deveria distinguir, o ponto de vista sindical - e de um
modo geral dos profissionais - sobre as políticas e as práticas de
formação inicial de professores.
Vários/as investigadores/as
defendem um período probatório de indução profissional. A
formação docente, desde logo a inicial, deve assumir uma forte
componente práxica - reflexão entre teoria e prática, centrada
na aprendizagem dos/as alunos/as e no estudo de casos concretos,
tendo como referência o trabalho escolar.
A formação de
professores deve passar para «dentro» da profissão, isto é, deve
basear-se na aquisição de uma cultura profissional, concedendo
aos/às professores/as mais experientes um papel central na formação
das/os mais jovens. Têm de ser as/os profissionais desta área a
decidir e a determinar o quê, como e quando os/as futuros/as
docentes devem aprender antes de entrar na profissão (a exemplo das
profissões médicas, de enfermagem...).
Contributos como os de
António Nóvoa(1) destacam o conhecimento, o tacto pedagógico, a
cultura profissional, o trabalho em equipa (incluindo também, e cada
vez mais, outros profissionais), o compromisso social, transversais à
exigência que se coloca a quem
é docente. Em que medida é que
a formação inicial corresponde aos desafios que estão colocados,
hoje, e ao perfil do/a aluno/a? Como se articulam a formação
inicial e a
contínua? Não tem sentido abordar a formação
inicial de professores sem a estruturar de acordo com as competências
necessárias para a prática profissional, e o perfil de professor
que desejamos e de que, como comunidade, precisamos para sustentar um
futuro melhor. Entendemos a docência
como ciência, mas também
como arte/ofício, exigindo:
. Conhecimentos
.
Saberes-fazer
. Valores e atitudes
. Ética e deontologia
.
Prática e investigação, sendo essencial a relação entre
teoria e prática
. Criatividade
(...) teacher agency
and expertise are often underutilized in education system throughout
the world, and that by encouraging greater teacher agency and better
leveraging and utilizing the collective expertise of teachers,
educational systems can become more successful and more
equitable(2)
ZEICHNER, Kenneth M.
No que constitui profissionalidade docente, é nuclear a agência das/os professoras/es, que podemos explicitar em duas dimensões:
. Possuir um
conjunto de conhecimentos e de técnicas necessários ao exercício
qualificado da atividade docente.
. Aderir a valores éticos e a
normas deontológicas que regem, não apenas o quotidiano educativo,
mas também as relações no interior e no exterior do corpo docente,
o que se traduziria numa
adesão ao projeto histórico da
escolarização.
Do Relatório Braga da Cruz (1988) depreende-se
que a condição do corpo docente ser amplamente profissionalizada
lhe advém, não tanto da especialização pedagógica, mas da sua
dedicação exclusiva ao ensino (90%). Hoje, não podemos afirmar que
exista uma cultura comum aos docentes que se transmita através da
formação. Também não é claro que o processo de socialização
dos professores esteja planificado ou dirigido pela instituição
formativa, sendo mais algo que pertence ao que denominamos
currículo oculto da formação. No respeitante à autonomia
profissional, muitos fatores (individualismo, burocracia,
intensificação, funcionarização) confluem para a dependência dos
professores de poderes externos à profissão
- Estado,
Universidade, empregadores / clientes..., que a regulamentam e
condicionam de fora, na prática impedindo cada um e cada uma de
exercer o seu sentido crítico profissional(3).
Em relação ao
controlo sobre a profissão, verifica-se que é o Estado quem o faz,
na seleção, na
formação e nas habilitações para a
docência. Deverão ser as/os docentes a controlar a profissão,
e
desde logo a refletir e intervir sobre a formação inicial. A
formação inicial e contínua deve contribuir para ampliar as suas
competências para tal, e esse é hoje um dos desafios por
enfrentar. M. T. Estrela (1993) "uma das lacunas no
estudo da profissão é a relativa aos aspetos deontológicos a qual
tem sido marginalizada pela investigação, apesar da sua reconhecida
importância como elemento integrador da profissão".(4)
O
modo como nos vemos e nos exigimos saber, saber-fazer, ser,
individualmente e enquanto coletivo profissional, interage, ainda,
com o modo como os demais nos veem, esperam, ou nem esperam, de nós,
nos valorizam. A profissão docente tem vindo a sofrer uma "perda
de imagem e apoio social determinada tanto por fatores endógenos
como exógenos...".
Seja qual for a modalidade de
concretização da formação inicial, presencial, à distância,
desejavelmente remunerada, participada por profissionais, articulada
com instituições formadoras, terá de corresponder aos atributos
profissionais, no nosso tempo, tais como:
1. Revestir uma
importância social excecional já que os seus membros trabalham com
o conhecimento, as atitudes e os valores.
2. Precisar de uma
especialização, não sendo suficiente a intuição ou a vocação
para o seu exercício.
3. Exercitar-se regularmente num contexto
espaço temporal determinado, exigindo uma progressiva adaptação às
suas condições.
4. Ter um objeto próprio, consistente no
desenvolvimento de atividades tendentes a provocar a construção do
conhecimento e a favorecer processos de aprendizagem significativa
nos/as alunos/as.
5. Inspirar-se em valores sociais
assentes em ideais democráticos.
6. Precisar do envolvimento
dos professores na investigação, como processo de construção do
saber profissional, ultrapassando a ideia de que a prática docente é
a-teórica ou de que a teoria nada tem a ver com a prática.
7.
Submeter-se ao controlo e avaliação pública, garantindo o uso
adequado dos bens de que dispõe
e a melhoria do serviço
público prestado.
8. Desenvolver-se em quadros institucionais
que devem oferecer um apoio psicológico e condições e meios
suficientes para o exercício gratificante da atividade.
9.
Apresentar-se como um serviço colegiado, o que requer a formação
de equipas e a colaboração
na investigação e na
docência.
10. Conceber-se como fonte de criação e difusão do
conhecimento, o que exige a participação de todos os que intervêm
na tarefa, especialmente dos/as alunos/as, que são os/as
protagonistas
do processo de aprendizagem.
Cresce a
perceção entre os professores e as professoras da urgência de
medidas que permitam enfrentar os medos e prevenir o burnout,
vencendo afastamentos entre gerações e sectores, tornando o
exercício profissional atrativo - por condições laborais dignas e
estimulantes, mas também
por maior confiança na preparação
para o quotidiano docente e para a capacidade de influir na
mudança
para melhor, da carreira, das escolas, da educação.
Com
preparação e dedicação, usemos a paixão, fria ou quente, de que
somos tão capazes, para
tomar a palavra e fazer este
caminho.
(1) NÓVOA, António. - Para uma formação de
professores construída dentro da profissão. In Revista de
Educación, Madrid: Ministerio de Educación y Formación
Professional, No 07 [2009].
Disponível em URL:
https://www.educacionyfp.gob.es/revista-de-educacion/dam/jcr:31ae829a-c8aa-48bd-9e13-32598dfe62d9/re35009por-pdf.pdf
(acedido 2021.05.24)
(2) ZEICHNER, K. M. - A formação
reflexiva de professores: ideias e práticas. Lisboa: Educa, 1993.
(Educa : Professores; 3). ISBN 972-8036-07-8. Disponível em URL:
https://repositorio.ul.pt/handle/10451/3704 (acedido 2021.25.24)
(3)
GARCÍA ALONSO, Maria Luísa. - Inovação curricular, formação de
professores e melhoria da escola : uma abordagem reflexiva e
reconstrutiva sobre a prática da inovação-formação. Braga:
Universidade do Minho, 1998. Tese de doutoramento em Estudos da
Criança. Disponível em URL>: https://hdl.handle.net/1822/10840
(acedido 2021.95.24)
(4) ESTRELA, Maria Teresa. -
Profissionalismo docente e deontologia. Lisboa: Colóquio Educação
e Sociedade, no4, Dez. 1993, pp.1985-210
Maria José Magalhães, Maria José Vitorino
Professoras
Publicado na Revista do SPGL Escola Informação Maio de 2021
Fonte primária: https://www.spgl.pt/escola-informacao-no-295-maio-2021 (acedido 2'210620)
Imagem | Sigmund on Unsplash

