Manuel Heitor, não recomendado para ministro | Rui Curado Silva
Nos últimos dois mandatos, a maior parte dos investigadores que fazem um trabalho reconhecido internacionalmente e cujos currículos eram impensáveis há 20 anos atrás, têm recebido cronicamente este tipo de resposta nos concursos nacionais de contratação de investigadores e de projetos de investigação:
- Final Score (Nota Final): Outstanding (Excecional);
- Recommended for funding (Recomendado para financiamento): No (Não).
Ou seja, nem aquela ideia de que o governo só iria apoiar a excelência (em austeritês significa: vamos reduzir imenso o número de projetos científicos financiados) se concretiza na prática. Apesar das grandes proclamações de contratação de investigadores e de aumento de financiamento da ciência, o executivo de Manuel Heitor deixa muitos projetos científicos e muitos cientistas "excecionais" fora do sistema.
PIOR, O EXECUTIVO DE MANUEL HEITOR TEM SIDO APOIADO NESTAS PRÁTICAS POR MUITOS REITORES, COMO O REITOR DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (ANTÓNIO CRUZ SERRA) QUE É CONTRA A CARREIRA DE INVESTIGAÇÃO, MAS CUJA INSTITUIÇÃO SÓ É O QUE É JUSTAMENTE GRAÇAS AO TRABALHO DE IMENSOS INVESTIGADORES MAL PAGOS EM CARREIRAS PRECÁRIAS.
A realidade de grande parte dos investigadores em Portugal passa por um horário de trabalho muito superior às 40 horas semanais, por lecionar aulas gratuitamente, por realizar tarefas adicionais para as instituições que não cabem nos seus contratos de trabalho, tudo isto por um salário low cost ou, pior, sem qualquer remuneração durante os frequentes períodos de transição entre contratos precários, que podem estender a alguns meses.
O recente documentário "Subterrâneos da Precariedade" da autoria do deputado Luís Monteiro ilustra bem esta realidade.
A recondução do Ministro Manuel Heitor trata-se de uma escolha muito infeliz deste Governo e é o reflexo da incapacidade do Executivo em perceber a importância do desenvolvimento científico para o conhecimento, para o bem-estar da sociedade e para a criação de novos empregos.
Originalmente publicado em Lux24
Rui Curado Silva, investigador em Física.
Imagem: chuttersnap, Unsplash

