Os equívocos da luta contra a maioria absoluta | Adelino Fortunato

02-06-2023

Intervenção na  XIII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda - 27 e 28 de Maio 2023

Lutar contra as políticas do governo do PS ou lutar contra a maioria absoluta?
Aparentemente trata-se da mesma coisa dita de formas diferentes. Mas não é assim tão indiferente esta alternativa, embora a mensagem do Bloco use ambas as formulações. Se lutamos contra as políticas do governo, lutamos para as reverter sem pôr em causa a sobrevivência do próprio governo.

E porque lutamos contra a maioria absoluta?
Porque somos contra todas as maiorias absolutas, porque conduzem sempre ao poder absoluto,
ao clientelismo e à corrupção?

Então seríamos também contra uma hipotética maioria absoluta do próprio Bloco de Esquerda,
o que é um absurdo. De facto, temos sido contra esta maioria absoluta, o que significa também que temos sido por uma maioria não absoluta, isto é, relativa, o que, no contexto atual, poderia ser entendido como
derrubar o governo e convocar eleições antecipadas.

E para que quereríamos nós uma maioria relativa do PS?
Na linguagem habitual do Bloco de Esquerda, para podermos determinar políticas e influenciar o governo negociando com PS e PCP. Claro que também precisamos disto, mas, esta é uma lógica puramente eleitoral. Para atingir este objetivo o que interessaria seria ganhar votos, venham de onde vierem, até dos
descontentes inorgânicos seduzidos pelo populismo. E assim passa a valer tudo. Esta orientação tem dois riscos. O primeiro é o risco de não dar certo, porque o PS resiste mais que o esperado e a extrema-
direita capta o universo dos descontentes mais primários. O segundo, é que a vertigem eleitoralista, mesmo que tivesse algum êxito de curto prazo, não se faria com as camadas da população, nomeadamente da base do PS, que interessam para construir um partido de massas dos trabalhadores.
Isto significa que, quando ajudámos a criar a Geringonça, quando combatemos as políticas antipopulares do governo de António Costa ou quando fizermos o que for preciso no futuro, devemos estar sempre a contribuir para os mesmos objetivos: a procurar a ligação, a implantação e a mobilização que facilita a criação de um partido de massas para uma grande transformação social. E que nesse caminho não há atalhos. E que o Bloco deve assumir aquilo que diz nas entrelinhas e evitar confundir-se com a direita.
Para isto ser viável é necessário articular as propostas que nos permitam dialogar e desafiar as bases dos grandes partidos de esquerda e construir os instrumentos de intervenção no movimento organizado dos trabalhadores, nomeadamente no movimento sindical, que deem estabilidade à nossa base de apoio e capacidade de iniciativa. E, claro, intervir em todas as mobilizações que exprimam nos diferentes terrenos, da produção e da reprodução social, o desdobramento da luta de classes e a luta pelos direitos cívicos e sociais.

É preciso fortalecer no Bloco a ideia de que somos a parte da esquerda que pode contribuir decisivamente para a sua reconfiguração, para uma alteração da relação de forças no seu interior, sem esquecer o contexto de crise profunda que essa mesma esquerda atravessa em todo o mundo. Reconhecer esta crise já é um passo em frente. Atacá-la, é o passo que nos falta dar.

Muitas tarefas e muitos desafios. As tarefas e os desafios da esquerda no século XXI, as tarefas e os desafios de quem quer realmente o socialismo ou de quem quer levar o país a sério.



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