Preparar o Bloco para todas as lutas
PREPARAR O BLOCO PARA TODAS AS LUTAS
No período que vivemos mudanças táticas frequentes são inevitáveis. Resultam das viragens bruscas da situação objetiva das relações internacionais, da irregularidade da conjuntura económica, da flutuação das expectativas de diferentes camadas e grupos da população, da erosão do sistema político e da crise no plano partidário. A instabilidade é uma das principais caraterísticas da época atual e o estudo atento das variações da situação política tornou-se mais exigente que nos períodos de desenvolvimento "regular" do capitalismo.
O Bloco deverá manter a política ofensiva e desafiadora dirigida às massas trabalhadoras, que lhe assegurou o terceiro lugar no sistema partidário, adaptada às novas circunstâncias: um governo do PS, que ganhou as eleições sem maioria absoluta e recusou um acordo com o Bloco, sempre a ser comparado com os últimos quatro anos. Depois da política de reparação dos danos da Troika criou-se esperança de uma governação virada para os problemas estruturais dos serviços públicos e do trabalho; ao mesmo tempo, que cortes ou austeridade serão fortemente penalizados pela opinião pública.
Tirando partido deste duplo registo, o Bloco deverá alargar a sua influência articulando a intervenção junto dos diferentes movimentos sociais, acompanhada da apresentação de propostas concretas no terreno institucional, visando melhorar as condições de vida da maioria da população. Desta forma se poderá contribuir para o reforço da dinâmica da mobilização social, para o fortalecimento da confiança e para a criação de uma alternativa anticapitalista baseada na ação e na experiência.
O CICLO PÓS-GERINGONÇA
Contrariando as apreciações precipitadas e pouco fundamentadas, o desenvolvimento dos acontecimentos vem confirmando a fragilidade da vitória do PS e a margem de influência que Bloco e PCP, de forma diferenciada, continuam a deter. O crescimento eleitoral do PS alimentou-se da crise da direita e marginalmente de franjas do PCP, mas construiu-se com quatro anos de políticas identificadas na generalidade com a esquerda (apesar da crise dos professores e das investidas contra o direito à greve). Isso deixou marcas no próprio PS difíceis de apagar quando a situação exige mais investimento público, uma nova política de saúde, apostas consistentes na educação e na cultura, alterações na legislação do trabalho ou a nacionalização dos CTT, do Novo Banco e da energia.
Em particular o Bloco não só contribuiu para o fortalecimento da capacidade de luta da população trabalhadora e dos movimentos sociais (LGBT, identidade de género, justiça climática, anti-racismo ou contra discriminação de portadores de deficiências), como conquistou um eco no interior do PS sem precedentes. Isto constitui um ativo político alicerçado nalgumas vitórias de setores mais combativos (estivadores, por exemplo), mas também em alterações legislativas (Lei de Bases da Saúde, Estatuto dos Cuidadores Informais).
Estas circunstâncias dificultam as tentações de A. Costa para entendimentos com a direita e criam expectativa de que as políticas da atual legislatura aprofundem o que foi feito na anterior. A intervenção do Bloco deve manter a lógica de desafio sem ultimatos e de proposição baseada nas reivindicações fundamentais dos trabalhadores e de diversos movimentos sociais, mobilizando a atenção da maioria da população, mantendo o governo sob pressão, revelando-se útil e com capacidade de influência, mas também identificando e denunciando as carências, combatendo os erros e as medidas antipopulares que possam vir a ser adotadas.
O facto de o PS não ter maioria absoluta irá revelar-se, neste contexto, uma condicionante da maior importância. Bloco e PCP deverão mostrar-se disponíveis em permanência para negociar os Orçamentos do Estado e outras iniciativas legislativas, sempre fazendo propostas concretas, obrigando o PS a mostrar dependência e a optar, umas vezes cedendo, outras rompendo o entendimento à esquerda. Viver-se-á uma situação instável, que poderá minar a coesão do governo e tornar difícil a sua sobrevivência durante os quatro anos da legislatura.
Isto será particularmente evidente nos momentos de isolamento e de ameaça de queda do governo por falta de apoio parlamentar. O Bloco deve criar desde já um quadro de polémica compreensível pela larga maioria da população que revele a responsabilidade do PS numa eventual crise política, evitando sofrer chantagem e a imposição de situações aparentemente irreversíveis.
A própria gestão dos conflitos sociais e da luta partidária irá revelar a diferença entre o que aconteceu durante a Geringonça, solução política baseada num acordo de legislatura que salvaguardou elementos fundamentais do Estado Social e dos direitos dos trabalhadores, e o novo contexto criado pela vitória do PS sem maioria absoluta seguida da recusa dos acordos à esquerda propostos pelo Bloco. O ónus da instabilidade e das contradições inevitáveis deverá ficar todo do lado do PS.
A HISTÓRIA NÃO SE REPETE
Apesar das especificidades deste ciclo pós Geringonça, não é possível esquecer que ele se insere numa tendência mais geral de refluxo social e político, de ascensão da extrema-direita e que o grande objetivo da esquerda é o de juntar forças, fortalecer a unidade e recuperar iniciativa. Para que isso seja possível é necessária uma grande proximidade com as aspirações e as mobilizações sociais e uma atitude de permanente desafio para ações conjuntas com outros partidos em torno de reivindicações concretas.
O Bloco hoje está em melhores condições para conduzir uma política desse tipo pois lidou bem com o elevado nível de exigência tática dos últimos quatro anos e com a proximidade ao PS (e ao PCP) mantendo distância crítica e identidade. Isso deu-lhe uma audiência alargada e a oportunidade de provocar conflito entre as expectativas das massas de uma vida melhor e os compromissos do governo, sem reforçar as ilusões no PS. O resultado das legislativas e a forma como foi interpretado publicamente provam-no.
O Bloco não vive hoje uma depressão profunda nem a sensação de falhanço que poderia fazer do relacionamento com a social-democracia, e com o PCP, uma espécie de tema tabu. Pelo contrário, neste momento é possível manter um diálogo com a população trabalhadora e os movimentos sociais, por vezes com impacto institucional e em termos de medidas concretas, não traduzido apenas em declarações de princípio ou em tiradas sectárias, que só exprimiriam a insegurança e a natureza propagandística do partido.
Um partido como o Bloco de Esquerda só pode crescer se for capaz de se apresentar com ideias concretas em todos os domínios, incluindo na área da governação, e se não se refugiar à volta de trincheiras que apenas favoreceriam um discurso virado para dentro das suas fileiras definido pela negativa. A alternativa que queremos construir tem de ser desenvolvida a partir do movimento social e da experiência concreta de que só o Bloco de Esquerda pode conduzir consequentemente a luta por uma sociedade socialista.
A maioria dos aderentes do partido percebeu a natureza da mudança tática implicada pela Geringonça e compreenderá os ajustamentos que se irão produzir no ciclo atual. Eles envolvem a dinâmica de um partido que não vive apenas da demarcação programática, essencial nas fases iniciais da sua construção, mas que procura também e sempre influenciar a vida concreta da maioria da população. Esta evolução não põe em causa os objetivos estratégicos de transformação anticapitalista da sociedade, é mesmo a forma mais eficaz de o fazer.
Para ganhar influência em novas camadas de apoiantes o Bloco responderá às suas necessidades e anseios com propostas e iniciativas que procurem ter consequências efetivas desde já. Essas ações terão de ser um desdobramento tático articulado com os objetivos estratégicos mais gerais do partido e nunca poderão contrariá-los. Só assim se poderá evitar a irrelevância política e fazer o encadeamento entre os propósitos de mudança radical da sociedade e o nível de consciência e de carência atual da maioria da população.
O Bloco precisa de melhorar a capacidade de comunicação entre órgãos dirigentes, representantes eleitos e a generalidade dos seus aderentes para tornar mais clara esta realidade. A força da mensagem que emitimos nos meios de comunicação e nas redes sociais tem de ser multiplicada dentro do partido e enquadrada à luz da sua conformidade com as definições programáticas, bem como dos questionamentos, prioridades e perspetivas dos aderentes. Se formos capazes de o fazer teremos um partido mais mobilizado, mais democrático, mais eficaz e mais plural.

