Tempo de Interjeições! | Luís Nascimento
Basta! Chega! São os nomes do partido de extrema-direita português que chegou pela primeira vez à Assembleia da República, com interjeições de discurso em linha com outras organizações congéneres na Europa.
O André Ventura não caiu do céu, nem chegou subitamente numa manhã de nevoeiro. Ele foi levado pela mão, inadvertidamente, pela direita "clássica", pelo mediatismo ganancioso e trauliteiro das televisões ávidas de audiências com a sua inflação de programas pseudodesportivos e pela contaminação viral, idiota e parola produzida pelas redes sociais.
Como pano de fundo em Portugal e no resto da Europa: a crise da democracia que é a crise da representação. E essa resolve-se garantindo que a política representa as pessoas, nos seus problemas, ansiedades e desejos.
É isso que se propõe explicar o livro editado há dias "O Populismo e a Revolta contra a Democracia Liberal", dos politólogos Matthew Goodwin e Roger Eatwell, especialistas em fascismo e populismo.
O ponto de partida do estudo é este: o que esta por detrás dos populismos no ocidente? Quem apoia?
Por todo o planeta há milhões de pessoas que se sentem excluídas da política tradicional e isso traduz-se numa hostilidade ostensiva para com as minorias, os imigrantes, as causas identitárias.
Mas também contra a economia neoliberal
Muitos eleitores voltam-se para movimentos políticos que começam a transformar a face do demoliberalismo ocidental.
EUA, França, Alemanha, Polónia, Áustria Itália são exemplo do crescente fenómeno.
Numa profunda análise sobre a paisagem política destes tempos a questão é também saber se existe um debate estéril e inútil sobre os fenómenos populistas.
Os investigadores caracterizam estes votantes enquadrados como voto de protesto e contra a grande recessão de 2008, a juntar-se ao grande aumento do fluxo migratório desde 2015, em particular quando a chanceler alemã Merkel abriu as fronteiras a um milhão de migrantes e refugiados.
Os autores consideram que há uma serie de preocupações destes eleitores que são legitimas. A tal crise de representação da democracia.
Questionam até que ponto há uma elite liberal que domina a agenda e não dá conta das preocupações das classes trabalhadoras e menos educadas.
Hillary Clinton, membro dessa elite, declarou que muitos os apoiantes de trump eram um bando de "deploráveis", durante a campanha para as eleições gerais de 2016.
Mas o livro não faz uma análise particular pais a pais, mas de uma forma global, ainda que sustentada em exemplos.
Há sempre uma tensão na análise política sobre se se procuram diferenças ou semelhanças.
Goodwin e
Eatwell afirmam que existem diferenças num olhar sobre o nacionalismo populista.
No caso da Hungria Viktor Orban proclama uma democracia "iliberal", e há quem
pense que ele está a defender autenticamente uma democracia.
Nigel Farage, xenófobo que agora lidera o Partido do Brexit, no Reino Unido, impôs-se principalmente no poder local com a sua agenda nacionalista, trauliteira e anti-imigração.
Estes dirigentes querem à sua maneira reforçar a democracia, do governo pelo povo.
Diferentes do Vox em Espanha, partido patriarcal dominado por um homem que é contra os direitos das mulheres, dos LGBTI+ e que viu o seu papel reforçado com a crise independentista da Catalunha.
Já Marinne Le Pen assume-se como uma mulher divorciada, trabalhadora e nos últimos anos tem estado rodeada de conselheiros que são homossexuais.
Nestes países, as motivações acabam por ser diferentes.
Os autores consideram errado homogeneizar estes partidos e nem todos se parecem com Donald Trump.
Na Alemanha a líder parlamentar da AFD é abertamente lésbica, vive com uma mulher asiática (não branca) é uma pessoa da tal elite, no caso financeira, doutorada em economia.
Neste olhar para as variantes nacionais existem factores centrais que se aplicam a todos eles o que tem feito o populismo avançar.
Os investigadores estabelecem quatro "d" na categorização do populismo no ocidente: a) desconfiança em relação as elites políticas aos académicos, aos jornalistas, que eles consideram só quererem saber da internacionalização); b) dependência económica, nem são tanto os muito pobres," esses não votam, mas são trabalhadores que sentem que a sua posição na sociedade está a declinar" e que relativamente aos outros ou que o seu futuro está ameaçado; c) "d" de destruição, porque sentem que uma comunidade local está a ser destruída pela imigração e o declínio industrial dando como exemplo, que nos EUA 60% dos trabalhadores são pagos à hora, são em geral precários; d) desalinhamento em países, em que as pessoas já não se identificam com os partidos tradicionais.
Feito o diagnostico os autores não se atrevem a prever tendências eleitorais.
Mesmo com o declínio do Partido da Liberdade(neonazi) da Áustria que há dois anos foi a segunda força e entrou para o governo e agora baixou, ainda assim para os 14%.
Interessante neste estudo é a dinâmica de factores com outros partidos a desafiar ou copiar estes partidos.
O nacional populismo vai permanecer importante na influência que tem dentro dos sistemas, mas a exercer uma influência sobre outros partidos mesmo do centro esquerda e do centro direita. Na Eslováquia, os socialistas são abertamente anti-imigração.
Olhando para os últimos resultados das eleições para o Parlamento Europeu, os investigaram notam que muitos destes partidos tinham uma visão cultural europeia, de democracia cristã, outros por valores essencialmente anticomunistas, anti-islâmicos.
LUÍS NASCIMENTO
ESTUDOS POLÍTICOS DA UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
Imagem: Make Men Great Again © Edgar Martins

