Ao sabor dos acontecimentos | Adelino Fortunato
Persistentemente a crise pandémica foi-se agravando. Depois da primeira vaga e do confinamento total nunca mais o governo foi capaz de controlar duradouramente a evolução da situação. Primeiro, porque se deslumbrou com o sucesso relativo desse primeiro embate em Março, quando conseguiu provocar o "achatamento" da curva epidemiológica. Mas também porque se quis manter sempre nos limites daquilo que é compatível com osconstrangimentos impostos pela União Europeia. Em breve o governo poderá exibir resultados do ponto de vista do controlo do défice orçamental que servirão para manter a confiança dos mercados e o aplauso do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia.
O problema que isso criou foi um modelo de intervenção sempre arrastada pelos acontecimentos, em vez de os antecipar e prevenir. Estamos muito longe daquilo que deu prestígio a António Costa junto da população, e até internacional, quando tomou a iniciativa de encerrar grande parte das atividades deste país para salvar vidas. É certo que foi doloroso e sobretudo que os mecanismos de apoio aos setores mais atingidos foram insuficientes ou inexistentes, mas sentia-se que havia uma ideia, uma intenção e que ela tinha coerência e era fácil de explicar. Neste momento isso não existe. O governo decidiu adotar um método que designou de "tentativa/erro", que não é outra coisa senão deixar-se ir ao sabor dos
acontecimentos, numa lógica puramente reativa e de contenção de danos.
O preço que pagamos por tudo isto é enorme. Não só Portugal figura no topo das estatísticas internacionais de número de novos casos de infeção por Covid-19 e de mortes por milhão de habitantes, mas adicionaram-se problemas estruturais a que ninguém quer responder. Muitas
das medidas anunciadas pelos ministros não chegam ao terreno ou demoram uma eternidade, as contratações de profissionais de saúde não chegam a fazer-se ou são realizadas em bases puramente temporárias, os doentes crónicos continuam em filas de espera, as escolas não têm condições para manter a atividade dada a exigência da situação sanitária, os lares continuam a revelar enormes dificuldades no controlo das infeções, o desemprego aumenta e o mal-estar e o descontentamento aprofundam-se na população.
Governo e Presidente da República foram esperando a degradação da situação para se convencerem eles próprios e para justificarem junto da opinião pública a inevitabilidade das medidas. O episódio mais recente foi o encerramento das escolas, sempre negado em nome de argumentos respeitáveis, mas que acabaria por se tornar inadiável. Num momento tão delicado como este que vivemos aquele descontentamento não se vira apenas contra alguns protagonistas da vida política, ele pode virar-se contra as próprias instituições democráticas como um todo. Aquilo que parecia impensável há bem pouco tempo está mesmo a acontecer, o sistema político dá uma sensação de falhanço e o discurso racista, xenófobo, misógino,
boçal, discriminatório e saudosista dos valores mais retrógrados ganhou algum espaço.
Não sairemos desta crise com remendos e medidas avulsas. Há uma emergência a que não se pode virar as costas, mas as respostas que construirmos a essa emergência devem antecipar um futuro de uma sociedade diferente e melhor. Não basta replicar o que existia no passado. Esse passado foi triturado pelos acontecimentos. Nas duas últimas décadas duas crises profundas abalaram o mundo. As gerações mais novas só conhecem a precariedade e o desemprego como fenómenos recorrentes. Estas crises subverteram os equilíbrios ténues que existiam e um novo modelo precisa-se. Se não o fizermos daremos mais espaço ainda aos que apostam no pior. Não lhes podemos dar essa oportunidade.
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Adelino Fortunato
Professor de Economia e dirigente do Bloco de Esquerda
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